segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sem, no entanto, olhar de facto


Sem, no entanto, olhar de facto  

É p’ra ti que,  demoradamente,  olho

Sem , no entanto, olhar de facto…

Vezes  sem fim  aguardo - não olhando -

Que teus olhos pousem em mim, de imediato.

E nas costas, tua seduzida vigia pesa-me

No peito arfando sinto-a ignorar-me , pedra.

Sei que,  iludida,  sonho quem não és

Só aquele que penso amar-me, de rígida tez.

E quando, perdido, me olhas nos olhos

Sem, no entanto, olhar de facto,

Minha suplicante mente : mente feliz.

Segreda-me (em amplo aparato)

Na ânsia de que também me vês.

Aquela com quem tu acordado sonhas

Mas que imaginas ela não ser

Aquela que pensas amar-te

Mas sabes não te querer

E que acreditas fazer(-te) sofrer.

Será amor o acabado retrato?

Palpável apenas no átrio da intuição.

Um que dúvidas no tempo lamenta

Contrai  a dor intuída percepção

Ocupa no coração amplo espaço

Sorri no doce pressupor - água benta -

Ampara a hóstia da comunhão.

Desdenha o rubor, estende a mão.

É um amor que - quando toca -

Não se mascara, suplica rosto

E olhos com olhos latejando;

Encosto de lábios, pensamento fechado

Nas pálpebras sentido o fluir do momento

E a batida do coração, acelerado atrevimento.

Tantas as palavras que guardo cá dentro.

 É p’ra ti que, demoradamente, olho

Sem , no entanto, olhar de facto…

Beijo-te.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

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