terça-feira, 25 de novembro de 2014

é debaixo do chuveiro


é debaixo do chuveiro.

é debaixo do chuveiro que tudo - mesmo tudo - se resolve.

anda daí. preparado? tal como deus te trouxe ao mundo?

sentes? diz lá. consolado.

o formigueiro das gotículas a contagiar toda a tua pele.

o eriçar da subtil pelugem – faz vénia  à passagem do carreiro :

vento gélido - sabe exactamente para onde vai : e vai.

o dilatar dos poros ao suave toque da madrugada;

abraçam (porque querem), esgaçando, as lágrimas –

orvalho a suster na alma carícias de todas as horas: mágoas.

é um arrepio no calafrio dos entretantos , dos porquês -  dos crês ?

cerrar de olhos ( tranquila escuridão) no serrar da cruz que fere -

corrente de ar, ímpeto ; beija a de água : verte o amar.

e as liquefeitas estradas  do amor erguem-se;

carregam, em  hidro – dourado serenar, os aquedutos,

os fios humedecidos de vida : varrem o conspurcado, a morte.

e ainda tal como deus ao mundo nos trouxe,

comungamos o nós -  no afagar do corpo inerte : limpos.

limpos de dor. sofridos de amor.

nas entrelinhas das inúmeras nascentes termais,

oriundas dos mais diversos pontos cardeais,

observamos a junção do respirar no fundo da voz.

bramido ecoando o final da imersão -

extenso trajecto  no reclinar da emoção.

a foz que sentimos na entrada  a contra-luz.

dos aromas e das velas o banho a incenso.

o odor seduz: e ao amor próprio conduz.

o tudo (ch)orado no chuveiro convento.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

Sem comentários:

Enviar um comentário