domingo, 30 de novembro de 2014

Labirinto… (10.05.1996)


Labirinto… (10.05.1996)

Labirinto…

Olho em várias direcções

Faíscas de alvos que não o são

Levanto as mãos….

Um som arredio retrai-me

Olho para trás… nada vejo.

Torno a levantar as mãos.

Meus pés colados ao chão.

Para trás não consigo ir

Para a frente também não.

Olho em várias direcções

E não sei qual seguir

Elas não olham para mim.

Por vezes aparentam retorquir

Mas de imediato se tornam em vão

E eu continuo…

Colada ao mesmo chão.

Conceição Sousa in "Eu ou Ela?"

Em um castelo frágil (18.07.1995)


Em um castelo frágil (18.07.1995)

Em um castelo frágil de areia

Construí meus sonhos de criança

Doces, que nem a fruta já madura

Ternos, que nem o olhar de uma mãe

Lindos, profundos, sentidos.

A névoa matinal protegia-os

Com seu véu opaco de orvalho

E o som uivante dos navios

Perpetuava-os em ilhas longínquas.

Acalentava-os o calor desértico

E as carícias das calmas marés.

Mas eis que uma vaga irascível

Se ergue no salgado do crepúsculo

E com sua força cruel, irreprimível

Destrói o castelo, o sonho, a ternura do olhar.

E o que resta?... Uma ilusão apagada

Um não mais escutar…
 
Conceição Sousa in "Eu ou Ela?"

terça-feira, 25 de novembro de 2014

E quando para mim olhas


E quando para mim olhas

E quando para mim olhas sem, no entanto,  olhar de facto… beijo-te.

Beijo-te mais ainda quando me olhas firme nos olhos manténs contacto;

Beijar-te-ei, demorada e intensamente, quando a tua face tocar a minha: gemido acto.

Mas “quando” não é infinito – e o sangue arrefece, falece.

E o que agora te digo é do agora: agora acontece – porque te digo: acontece.

Embala comigo, nosso estar tece. Tece-me à medida: p’ra ti irei.

Se tu e o tempo o permitirem: respirarei – sem fôlego (fogo) nos consumirei.

É como te digo. Agora estou. Amanhã, não sei: estarei ou não estarei.

Amanhã, não sabes: estarás ou não estarás. Há dúvidas?

Eu já te beijei. Gostei. Gosto.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

é debaixo do chuveiro


é debaixo do chuveiro.

é debaixo do chuveiro que tudo - mesmo tudo - se resolve.

anda daí. preparado? tal como deus te trouxe ao mundo?

sentes? diz lá. consolado.

o formigueiro das gotículas a contagiar toda a tua pele.

o eriçar da subtil pelugem – faz vénia  à passagem do carreiro :

vento gélido - sabe exactamente para onde vai : e vai.

o dilatar dos poros ao suave toque da madrugada;

abraçam (porque querem), esgaçando, as lágrimas –

orvalho a suster na alma carícias de todas as horas: mágoas.

é um arrepio no calafrio dos entretantos , dos porquês -  dos crês ?

cerrar de olhos ( tranquila escuridão) no serrar da cruz que fere -

corrente de ar, ímpeto ; beija a de água : verte o amar.

e as liquefeitas estradas  do amor erguem-se;

carregam, em  hidro – dourado serenar, os aquedutos,

os fios humedecidos de vida : varrem o conspurcado, a morte.

e ainda tal como deus ao mundo nos trouxe,

comungamos o nós -  no afagar do corpo inerte : limpos.

limpos de dor. sofridos de amor.

nas entrelinhas das inúmeras nascentes termais,

oriundas dos mais diversos pontos cardeais,

observamos a junção do respirar no fundo da voz.

bramido ecoando o final da imersão -

extenso trajecto  no reclinar da emoção.

a foz que sentimos na entrada  a contra-luz.

dos aromas e das velas o banho a incenso.

o odor seduz: e ao amor próprio conduz.

o tudo (ch)orado no chuveiro convento.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

de verdade, amei-te


de verdade, amei-te.     

 
no ar que te sustenho, encontro-te ( átomos de dor ) na calçada do céu.

inspiro veladas partículas, ridículas poeiras de luz : do amor o véu.

entre suspiros, em trote, o cavalo marca sua ferradura na cruz;

pára, exausto, relincha no claustro, preso ao torpor do corpo: conduz.

é o sopro : é agora. é o vento: demora. é tudo o que já foi outrora.

a vida - danada. a ora ouriçada ora apagada vida - a que também cospe.

e a morte sabe, a morte está : sempre a sorte do que será - o lado mais forte.

no ar que te respiro digo (mil vezes digo): sei-te, sinto-te, amei-te.

de verdade, amei-te.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

de repente, tudo desaba


de repente, tudo desaba 

é suposto ser tranquilo,

de repente, tudo desaba.

um simples pedido

é retido num “calma” -

que se estende no tempo

e a carência aumenta.

o desdém  vem do acto

imaturo do momento -

a paciência acaba.

o pedido volta a ser feito.

no mesmo tom lânguido

é negado a preceito.

desprezo vejo nos olhos

ódio e recalcamento.

será que um dia termina

esta união em tormento?

a menina à avó confessa:

primeiro a mãe, depois o cão

a seguir o fogo de artifício -

que sacrifício.

o menino faz prometer

que nunca a separação

irá na linha ocorrer.

escuta da boca da mãe

 

palavras de consolo.

busca no olhar do pai

alento para a sua alma.

é tida a sua opinião

nestes segundos de dolo;

é-lhe explicada a razão

de tanto sofrimento:

abismos de personalidade

que travam o entendimento.

compreende, no entanto,

mantém-se na retaguarda:

“não  gosto disso” - remata.

saltimbanco não quer ser

outros exemplos descarta :

é uma família a valer.

pede para agir

e sua estratégia usar,

tem permissão para ir

e mimo no pai buscar.

diz-lhe umas palavras,

traz a companhia aguardada

e com dois beijos na testa,

um aconchego de cobertor,

termina em paz esta festa:

é só o que nos resta.

e o só é tudo.

 
Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

curto ou longo ensaio sobre o tempo


curto ou longo ensaio sobre o tempo

 
tempo? o que é esta coisa do tempo?

ponteiros - que já não são ponteiros

(mas meros sinais gráficos que ciclicamente alternam entre si : ciclicamente) –

em movimento ascendente e descendente ,

e, outra vez, o ascender e o descender : na roda, no círculo, na curva fechada.

tempo? aonde que não o vejo - não o sinto.

no deslizar do veículo a motor - nesse que acelera e trava.

o que é isto?

acelerei e já lá estou.

abrandei e nunca mais chego.

travei e paro.

e se acelerar estou lá.

se abrandar ainda vou.

se travar fiquei.

o que é isto?

tempo? será meu? ou do veículo?

é do motor. não. é do petróleo. é do homem que extrai o petróleo.

não. é do dinheiro que paga ao homem e que compra o petróleo.

não. é meu se não quiser comprar nem o homem, nem o dinheiro, nem o petróleo.

é meu se não quiser entrar no veículo.

é meu se não quiser olhar para o relógio - nem sequer tenho relógio ;

mas tenho o tempo. tenho?

não serei eu o tempo?

ou será o tempo eu?

mas que coisa é esta do tempo?

se falta a saúde

- venha o veículo mais rápido que vier,

ou o petróleo mais potente que houver,

ou o dinheiro mais caro que existir -,

se falta a saúde : falta o tempo.

e mesmo com saúde ou na falta dela,

com mais tempo ou menos tempo,

se o tempo quiser acaba-se o tempo: morre ali.

mas morre para quem?

para ti?

para mim?

para o tempo?

morre para todos (e para tudo)

os que entenderem que já não vale a pena perder ou ganhar tempo.

mesmo que haja tempo há quem decida que se acabou o tempo.

e de quem é ( ou do que é) o tempo afinal?

dos que não querem perder tempo?

dos que querem ganhar tempo?

ou dos que se estão simplesmente a marimbar para o tempo?

corre : se queres chegar a tempo.

pára: se isso é pura perda de tempo.

abranda: se ainda não te decidiste a tempo.

que coisa complicada esta: a do tempo.

se conseguiste chegar a tempo de ler o início deste texto

e levaste o teu tempo para chegar a tempo do fim : parabéns!

estás dentro do teu e do meu tempo : este /esse que já foi tempo.

o que é agora? não sei.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

como pode alguém dizer?


como pode alguém dizer  ?

 

como pode alguém dizer

que o desconhecido

é melhor ou pior

do que aquilo

que se conhece bem?

 

como pode alguém dizer

que as aparências e a carne

são melhores

que o amor

que nasceu, cresceu e te sustem?

 

como pode alguém dizer

que a visão do estético

da luxúria do corpo

é melhor

que o ventre

materno, embora torto?

 

como pode alguém dizer

que uma vida em comunhão

é pior

que o cenário

da novidade da pele na mão?

 

como pode alguém tão próximo

soltar tamanha aberração

no ímpeto do instante

causar lágrimas de dor

num suposto amor?

 

é certo que o que dói -

é a verdade há muito dita

no oculto das sensações.

saber pelas palavras

o intuído nos movimentos

e aos olhos do íntimo

reconhecer-se desalento.

 

há melhores,

mas é contigo que estou…

 

não estás. não estejas.

 

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

cala-te, por favor.


cala-te, por favor.

se realmente me quisesses

agirias no sentido do meu estar.

esta vontade que p’ra ti me leva

trar-te-ia até mim a voar.

vês como o meu coração fala

o teu calaria a minha dor;

isso que tu dizes sentir

quando em ti pouso

pode ser tudo: não é amor, meu amor.

cala-te, por favor.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

chora. faz parte. chora muito.


chora. faz parte. chora muito.

 
estás a chorar? não chores.

ou melhor: chora. chora muito.

rápido.

procura.

procura o canto mais escuro, o canto mais recôndito, o canto mais canto da tua casa.

fecha-te aí.

aninha-te aí. aninha-te sobre ti próprio.

enconcha-te em ti mesmo. abraça-te.

e chora.

está escuro? tem de estar tudo escuro.

há silêncio? tem de haver silêncio.

estás aninhado? estás abraçado?

no escuro? no canto mais canto da tua casa? fechado?

no silêncio dos outros? no teu choro?

escuta. o que ouves?

o teu choro? chora tudo: agora.

escuta. ainda o teu choro?

não. cantas.

cantas aquela canção de embalar. embalas-te a ti mesmo no berço.

balança-te.

abraça-te. afaga-te. beija-te.

e canta aquela canção de embalar.

então? sentes-te melhor? já passou?

respira fundo. mais uma vez. respira fundo.

agora: levanta-te e...

mundo!

estou a mandar. és tu que mandas:

mundo!

vai ver o sol. vai ver a lua.

vai ser do dia. vai ser da noite.

vai respirar o vento. vai congelar na lima.

vai mar adentro. vai montanha acima.

estou a mandar. és tu que mandas:

mundo!

sorri ao vizinho. acena à criança.

pisca o olho ao tal.

 na rua, um passo de dança.

dá um grito para o ar. ecoa no verde do vale.

põe o pé no rio. não. mergulha todo sem brio.

sente o calor na pele. prova o doce do mel.

arrepia na aragem da madrugada.

atenta no latir da canzoada.

arranha no miar do gatil.

estranha. mas não te abatas no canil.

chora. faz parte. chora muito.

mas salva-te e a outros mil.


Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sem, no entanto, olhar de facto


Sem, no entanto, olhar de facto  

É p’ra ti que,  demoradamente,  olho

Sem , no entanto, olhar de facto…

Vezes  sem fim  aguardo - não olhando -

Que teus olhos pousem em mim, de imediato.

E nas costas, tua seduzida vigia pesa-me

No peito arfando sinto-a ignorar-me , pedra.

Sei que,  iludida,  sonho quem não és

Só aquele que penso amar-me, de rígida tez.

E quando, perdido, me olhas nos olhos

Sem, no entanto, olhar de facto,

Minha suplicante mente : mente feliz.

Segreda-me (em amplo aparato)

Na ânsia de que também me vês.

Aquela com quem tu acordado sonhas

Mas que imaginas ela não ser

Aquela que pensas amar-te

Mas sabes não te querer

E que acreditas fazer(-te) sofrer.

Será amor o acabado retrato?

Palpável apenas no átrio da intuição.

Um que dúvidas no tempo lamenta

Contrai  a dor intuída percepção

Ocupa no coração amplo espaço

Sorri no doce pressupor - água benta -

Ampara a hóstia da comunhão.

Desdenha o rubor, estende a mão.

É um amor que - quando toca -

Não se mascara, suplica rosto

E olhos com olhos latejando;

Encosto de lábios, pensamento fechado

Nas pálpebras sentido o fluir do momento

E a batida do coração, acelerado atrevimento.

Tantas as palavras que guardo cá dentro.

 É p’ra ti que, demoradamente, olho

Sem , no entanto, olhar de facto…

Beijo-te.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Amar, Amar, Amar


Amar, Amar, Amar   

Amar, amar, amar

Há mar…

Imensidão de água

No apagar da vaga

No afagar da mágoa

Na onda do mago. Há.

 

Amor, amor, amor

-Ah! Morre!

Do alto da torre

De um tombo só

Se não é amado

Até mete dó

Se vai um à frente

O desgosto mata

É a alma da gente

Que não se trata

Desidrata.

 

Adorar, adorar, adorar

Há dor! Há ar!

Há respirar

E até findar

Pleno acreditar

No amor : -Ah! Morre!

No amar: Há mar

No adorar :Há dor ; Há ar

É o encadear

- Cíclico -

Do contraditório.

Ao iniciar

Tem de acabar

E dar lugar

A um novo Amor

A um novo Amar.

 

Ah! Morre!

Há mar.

Há dor.

Há ar.

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Paro


Paro

No olhar meigo de meus filhos

E bebo tranquila inspirada

Seu doce (e)terno sorriso

Vejo/Beijo nestes cálidos momentos

Um laivo da benévola amante Deusa

Que concede à nossa ansiosa demanda

Imensidão de afectos, sabores e cores.

Está à frente de nossos amordaçados olhos

Tão perceptível  no toque singelo de lábios

Tão evidente no gesto simples de afago

Mas assim mesmo…

Insistimos em não querer ver

Palpar, saborear, escutar, beijar

Cheirar, intuir, sei lá!

Na verdade, somos incapazes

Do óbvio percepcionar.

Somos parte evidente de um todo

Que nos mima, abraça e acompanha

Imensa é a luz, no iluminar tamanha

A amplitude em nosso respirar.

É só descentrarmo-nos do ego

Embrenharmo-nos na ramagem

Nessa que é a mãe, pura beleza

Espírito da fonte, essencial à vida

Ciclo do ser no estar e do estar no ser.

É isto viver.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

domingo, 23 de novembro de 2014

não quero o teu toque


não quero o teu toque

deito-me no nossa cama e não quero que me toques;

tocas-me ao de leve: encolho-me: rejeito-me.

neste segundo não te quero e não quero sentir o teu toque: abjecto-me.

sei que te causo sofrimento e que te dói este meu momento,

mas não quero que me toques: vomito se me tocas – não aguento.

sais da nossa cama: alívio na perda do santo sacramento.

espreguiço-me: descanso.

é de toque a obrigação; não quero mais que me toques:

evidente contracção.

e mereces ser tocado, amado, na tua meiguice, na tua doçura;

mas o meu corpo não quer o teu toque – reclama baldios de candura,

campos férteis de loucura.

a minha alma não quer mais o teu toque; exige-te de toque diabrura.

mereces eternidade em toque e livrar-te da ausência do meu toque

na tua ternura.

desculpa este vazio que sou na tua fartura.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

beija-me lentamente


beija-me lentamente

beija-me doce e lentamente;

demora-te, vivo, no amor que me sentes;

ama-me, arrepio de alma, no corpo cansado;

cobre-me de ti na nossa existência,

dita-nos certos neste fado;

sussurra-me no som  do meu embalo

esse timbre… deixa-me abraçá-lo.

não me iludas: vive-me.

em versos nos componho e à vida –

a que tu chamas de ilusão:

a minha realidade na tua mão.

faz-nos momento de nós na ocasião.

e quem nos ler adiante

que perceba não a fama,

mas sim o proveito. sim: o proveito.

porque se só fama for

serão vidas escritas com defeito.

espíritos eternizados nas letras do estar,

mas em vida que é vida desfeitos de dor.

 
Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

lágrimas


lágrimas

as lágrimas, que insistem em abraçar os olhos,

embaciam a dura realidade – neblina

de protecção à dor da verdade.

as lágrimas que queimam nos cantos da carência,

e ardem nos sem ar: bustos da ausência.

as lágrimas, com vida própria,

que caem soltas gemendo o rosto,

que nem cicatrizes de água,

afundam: permanente mágoa: desgosto.

as lágrimas que me acariciam

no âmago de a ti chegar,

que me lavam as preces

carpidas em cada dormir,

em cada por ti acordar.

as lágrimas que, em água e sal,

na alma se fazem,

algures, por dentro da carne –

e, no corpo, lá, onde não se vê,

em água e sal consubstanciam o sentimento,

a dor de existir no quase por vir.

as lágrimas que, de Deus escorrem,

deidade chuva,

em cada idade aligeiram

o pesado estar de todos quantos morrem.

as lágrimas, que me beijam a toda a hora,

são cansaço de amar, resignada demora,

amantes de mim e de ti,

lacrimejar de tudo e de nada,

vivência adiada, sonho que chora.

as lágrimas que, gota a gota, contadas,

desilusões, tristezas , alegrias,

e vida

somam, pela vida fora.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."