sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vida sem


Vida sem

Não te peço que não me mates, Senhor.

A morte, eu sei, é vida sem –

e é só o que sei.

Peço-te, sim, que continues a acompanhar-me

na descoberta de cada fim;

que continues a colocar uma migalha aqui,

outra acolá,

para que o reconheça a cada vez que me toca cá.

E, por fim, diga:

afinal é isto, afinal já te sabia.

Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O beijo


Dás-me um beijo?

E esse beijo que nunca mais chega…

Está demasiado demorado

A isto chama-se carência.

Eu dou-me um beijo

A isto chama-se aceitação.

Queres dar-me um beijo?

Espera…

Primeiro eu, depois tu, a seguir nós.

“Soube-me” tão bem os nossos beijos

Primeiro o meu

A seguir o teu

Depois o nosso.

Saboreei cada um deles

Cada um conhece-me bem.

Em cada momento

Cada um soube de mim

Cada um soube de ti

Cada um soube de nós.

Cada um: soube-me.

Cada um: soube-te.

Cada um: soube-nos.

Conceição Sousa in "pontas soltas:nós"

Perco-me toda


Com o tempo aprendi :

Ao dar-me toda

Perco-me toda

Ao descobrir-me

Cubro-me mais ainda.

Agora dou-me (na exacta dose)

Em que não me dou

Dou-me (na exacta medida)

Que o outro recebe.

E  ao receber

Acautelo-me

Para não me perder.

Todos ganham

No doseamento do dar

No acautelamento do receber.

Encontro-me aos poucos

Recebo-te às gotas

Entrego-me aos poucos

Sinto-te às pingas

Guardo-me aos poucos

Partilhas-te faíscas.

Distribuídos assim ficamos.

Cresço, cresces, crescemos.

Não nos prejudicamos

A nós - nem a ninguém.

Estando bem.

Sendo bem.

Um sorriso do nós

- nas batidas intermitentes -

É o que nos sustem.

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

é hora de


é hora de   

 
é hora de fazer amor com alguém que amo muito, sem dor.

é hora da ternura entre os teus braços, doce loucura, amor.

é hora de dizer "amo-te" num beijo lento, bem regado, sem tento.

é hora do prazer a mim confiado, desflorado, e de p'ra sempre amar-te, danado.

é hora da emoção contida em teu coração – de fechar portas ao não.

é hora do afagar cálido de língua no corpo dorido à míngua.

é hora do tesão, meta arrastada no tempo da brava sedução.

é hora de calar o nunca que dormia na voz do sempre, vadia.

é hora do lacrimejar salgado na pele rasgada do vento estuprado.

é hora de me amares sem dó no ventre que te dou a ti, e só.

é hora de fazer amor contigo e de me suares no tempo perdido.

é hora, amor, é hora do consumido, querido.

é hora de deixares de te sentir ferido.

 
Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

é a vida, amor.


é a vida, amor. 

 
é a vida que nos olha, percebe e suplica.

é a vida que nos molha, concebe e agita.

e o nós que não se quer: ser molhado - sequer olhado.

e o nós em tormento do outro lado -

a vela acesa e do sopro momento: aguardo.

a chama em calor abrasa a gota

que desce, lentamente, o estar.

e na ravina do ocaso segura

a lágrima. encontra o branco absorta.

despe-se do tórrido, abraça a ternura,

caminha na luz soltando a loucura.

leve, desliza no vale sem cor -

pedra de cera cristaliza-se amor.

é a vida em todo o seu esplendor.

é a vida, amor. é a vida sem dor.

o nós que sei - a sós. é o após

tranquilo - o serenar da voz.

é a vida, amor. é do estar: pleno sabor.

 
Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

desolação


desolação…

que não é do sol acção, mas sim da lua.

já sei que não gostas de mim – nua.

perdeste-me…sabes que sim.

 

desolação…

este constatar do apagar do fogo.

este chorar dentro – sem lágrimas no rosto.

e o virar de costas – as minhas. quem diria?

 

desolação…

a ausência da música no coração.

silêncio tranquilo – do que não bate.

mas que, sorrindo, aceita – finalmente.

 

desolação…

a chuva que cai e não molha.

o frio que entra e não arrefece.

o calor que já nem sai, nem tão pouco aquece.

 

desolação…

anestesia natural do arrebatador pulsar.

caminho adormecido do verbo amar.

hibernar forçado do amor contido.

vegetar.

Conceição Sousa in "ai.como dói. esta dor."

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Anda... vem...


Anda… vem…

Dói… saber-me aí sonhar-te aqui

Dói… saberes-te aqui sonhares-me aí

Fere-nos  o desencontro de nos sabermos

Magoa-nos o desalento de nos sonharmos.

Sabes-me a rio em lago sustido

Sei-te em vítreo aquário contido.

Outros mudam-te as turvas águas

Outros, que não tu, esvaziam-te de ti

Outros, que não tu, enchem-te de ti.

Sonho-te rio não barragem do mundo

Sonho-me teu mar no horizonte profundo.

Sei-te sôfrego em suor escorrido

Sei-te arfar vulcânico - meu doce gemido.

Sentes-me? Sente-me…

Saboreio teu envolver no lençol de mim

Sorvo - no deslizar meu -a mágoa sem fim

Chamas-me? Chama-me. Chamo-te:

Anda… vem…

Lava-me em labaredas de apedrejadas carícias

Mostra-te erupção premente - interditas malícias.

Mas não malditas.

Anda… vem…

Consome-te nas curvas da abjecta paixão

Consome-me ainda mais consumida.

Sacia-te nos vales - animalesca emoção.

Lava-me de mim em nós chama de magma.

Extingue nosso dorido fogo, peço-te:

Anda… vem…

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

E quando sinto a injustiça


E quando sinto a injustiça  

E quando sinto a injustiça

 Cá dentro

Solto o monstro em mim.

Blasfemo, grito, esperneio

A revolta, o horror, a dor - em fim.

Não gosto de sentir assim.

Massacro, disparo, torturo

Alteio ainda mais o muro

Que afasta o outro de mim.

Cada palavrão - uma pedra -

No dique da solidão.

Cada verbo - sentido e não -

Cada letra disparada ao vento

Morre ali naquele momento

Crava o outro no coração.

A todo o instante peço perdão

Sei-o de imediato em vão.

É uma neura que não controlo

Esta da insatisfação

A expectativa desfeita na desilusão.

Grito , blasfemo, esperneio as dores

- No peito desfazem-se as cores -

Apertam , estilhaçam a alma

Rogam-me tranquila e calma

Olho para o outro em silêncio…

Aguardo do dique a derrocada

Anseio das águas a chegada

Envoltas numa enxurrada de luz.

Aguardo o amor que seduz.

Mas tudo o que vejo:

É queda a pique.

É olhar longínquo ,apagado ,

E penso: é este o fado.

Pois seja. Será então.

E apática, entrego meu coração.

Apanho os cacos um a um

Coloco-os, mimando-os, na prateleira

Deixo-os ali quentinhos à lareira

Visito-os de quando em vez

 Foi assim que Deus me fez.

Descubro  pasma outros cacos

Que não os meus – lá.

Naquela tão visitada estante.

P’ra lá do vidro observo

A romaria que ali vai

Os mimos do outro que entram

A dureza do espelho que cai.

E nesse segundo me apercebo

Do sorriso de outros cacos na mão

Que com meus cacos se unem

Nos vasos do coração.

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Mentes descaradamente


Mentes descaradamente   

Mentes descaradamente: sabes que sim.

Omites no egoísmo de ti - o nós.

Aldrabas nas palavras os sentimentos:

A ti, no momento, seguidamente a mim.

Procuras amparo num toque arrebatador

Anseias desejo da loucura a paixão

Observas-te animal em carne besuntado

Mimas o trajecto vadio do redundante não.

Procuras-me - sei que sim - mas não te encontras.

Procuro-te - sei que sim - mas não me encontro.

Sou um de teus acarinhados segredos : aqui.

Sou um de meus doridos degredos : aí.

O tempo de agir já foi, aguardo…

Intuo-te nas silenciosas águas meu

Sei-me verdejantes mágoas tua

Escuto as ondas do despertar teu.

Espero-te ilha inexplorada nos cânticos das manhãs,

O resgatar plácido do nós no cais advindo,

No soltar da insegura corda  que te prende a voz.

Diz que me amas e que não te minto!

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Bati no peito


Bati no peito

Bati, no meu próprio peito, sim;

bati, com a força de mil cavalos, bati;

bati, enquanto encostava o meu rosto ao teu,

te olhava nos olhos e via quem tu, de verdade, eras;

bati, no meu próprio peito, sim;

várias e repetidas vezes, bati;

bati na minha cegueira, enquanto te gritava no rosto, ao fundo de mim:
 
Fica a saber: há algo que se quebrou cá dentro.

Conceição Sousa in "Podes ir, mas não sem antes voltar"

É pelo ouvido


É pelo ouvido

É pelo ouvido que a língua te toca,
névoa de lugar incerto.
É pela pele que arrepias caminho
e me dizes,
a mim que a habito,
o tacto da tua palavra.
E no sopro em que me assaltas o suspiro,
aguardas uns segundos,
gemido hirto.
E eu pergunto-te,
sustida nas bocas abertas,
em qual fundo está a origem do eco:
 
Onde estás
que não te chego,
habitante de todo o lado?
 
Conceição Sousa in "Podes ir, mas não sem antes voltar"

Mortos a brincar aos vivos


Mortos a brincar aos vivos

As pessoas desistiram-se de o ser: pessoas.

Já nem sequer ousam uma aproximação,

uma entrega, a doação de si.

Temem –  temem? não será o melhor conceito, vá;

pois quem perdeu aquele brilho no olhar

já não teme nem deixa de temer –

que o sorriso seja aquilo que é: o sorriso;

ou que a lágrima seja aquilo que é: a lágrima;

ou que o abraço seja aquilo que é: o abraço;

ou que o beijo seja aquilo que é: o beijo;

ou que o amor seja aquilo que é: o amor.

Passam umas pelas outras

na rua, no café, no trabalho,

no prédio, no autocarro

e fingem que os olhos não são aquilo que são: olhos;

e fingem que a boca não é aquilo que é: boca;

e fingem que a voz nasceu para fingir que é silêncio.

Passam umas pelas outras na internet,

observam-se, lêem-se,

criam uma rotina diária de transeuntes

e continuam a fingir que os dedos não são aquilo que são: dedos;

que o coração não sangra, nem o sangue corre, nem a alma aquece.

Continuam a inventar mil formas de comunicar para se tocarem

e, no final, não se manifestam.

Chego à conclusão de que somos mortos

a brincar aos vivos.

Conceição Sousa in "Podes ir, mas não sem antes voltar"

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Um amigo de verdade


Um amigo de verdade

Um amigo de verdade não te dá só sorrisos,

diz-te coisas que não queres ouvir,

e arregala-te os olhos

quando sente que estás a passar a linha vermelha.

Um amigo de verdade escuta a tua fúria calado,

mas, mesmo que continues a fazer asneira,

mantém-se ali, triste e colado,

à espera do momento em que, nos braços dele,

chores todos os teus pecados.

E o amor por um amigo nunca se diz, é verdade.

É sempre saudade.

Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

Voo


Voo

Ando por aqui e por ali,

meia perdida e meia encontrada,

sem saber muito bem para que lado hei-de me virar,

e sempre a saber tão bem em que lugar quero estar.

Ando por aqui e por ali, e, quando te chego,

quando te quero e te sou,

quando te convido e nos conversamos,

quando nos confortamos e amamos

nisto que somos (nisto que realmente somos. Seremos?),

quando nos olhamos na montra do lago...

esvazio-me, entonteço, adormeço de mundo,

de vida, de morte, de mim, disto: é oco...

é leve, tão leve, tão sem gravidade.

Agarra-me! Segura-me! Aperta-me! Abraça-me que voo...
m como tu já voltaste algumas vezes, lembras-te?
Penso que o importante é sabermos, nesses raros momentos em que nos soltamos um do outro, que nos estamos a perder um ao outro;
penso que o importante é o outro ficar alerta - sempre alerta ( é o que tem acontecido, não?) - e manter-se firme na decisão de não desistir, de não deixar de amar, de até saber que é nesse instante - o da perda iminente - que a paixão regressa com a força de um vulcão em erupção;
penso que o importante é o amor: a certeza desta ternura que nos abre os braços na hora de regressar a casa.
És tu o meu doce lar.
Viaja, conhece, meu cavaleiro,
mas volta lá da Dinamarca para me continuares a amar.

Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

Geme-o


Geme-o

Acredita, algures na tua vida

vai te ser difícil digerires esta recusa

(se é que já não está a ser).

Mas o meu amor por ti é tão grande –

e fixa bem isto – que te digo:

o tédio não é o pior,

o pior é saberes que ao escolheres não tens remédio:

tédio.

Isto assim é poucochinho.

Melhor que nada, sim; mas poucochinho.

E a dependência emocional ao nada,

inevitavelmente acaba em nada:

nada dura para sempre:

tédio em estado antecipado: o vazio.

Será possível um amor pleno, um amor cósmico,

um amor cúmplice no vazio?

Sim: à posteriori.

Não: se é à posteriori não traz proveito aos agentes.

Não é amor. É passatempo. É vazio. É amor?

Eu penso-o, a outra geme-o.

Tu pensas-me, a outra geme-o.

Ela não o tem. Eu sou-o, mas ela geme-o.

Se não precisas da minha carne,

se não escutas o meu gemido ( o de verdade),

não é amor – mas ela geme-o,

em ti, o que te sou.
 
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mato-me

Lá longe sinto-te meu regressar

Naquele instante em que te pensas apagar

Esvais-te na pele, cacto, roçando ao de leve

Queima cá dentro, arde ao toque - név(o)a.

Na orelha mordo minha vontade de nós

Nu(n)ca  é o erógeno onde te saboreio

Arranhas no sempre, em rubor, minha voz

Tua barba arrepia loucura sedenta de dor

E na dureza de teu meigo rastejar

Amplio meu desejo pelo fruto encolhido.

O peito arfa faminto em selvática guerra

O coração em batida retira e alcança

No ventre a noite trepa o cobre

Da dança no amor rasgado e ferido.

Quando os movimentos fogem, escorrendo,

Labaredas de fogo incendeiam húmidos corpos

E as correntes ejaculam elos apartados

Fundem-se em mornos abraços lentos

Suaves beijos percorrem o devastado mato.

E o tempo de matar é findo acto: amo-te.

Mato-me.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Agreste

    

Agreste é o caminho - íngreme o fado -

Gélido o atalho (em névoa cerrado).

No rio estreito da curta existência

Que passa… mesmo ali ao lado,

Vamos - tu e eu- de braço dado

Não se corta a direito nem sequer a eito.

 

Na margem, aqueles outros -que não nós -

Numa apatia, pesarosa e triste, observam.

Não conhecemos o timbre da sua voz.

Atentam nas águas reboliças, zangadas,

Nessa luta por respirar - a deles.

Incarnam nas urtigas ensonadas

O rubor das sangrentas chagas  - as nossas.

Estátuas apontam a corrente arredia

Sorriem encenadas poses do tudo

Imagens de cera - só isso - derretem

Ao abrasador calor - liquefeitos no nada.

 

Aqui - molhados em galhos de azul e luz -

Encharcados na lama dos húmidos amores,

Entrelaçamos nossas dores – sufocando.

Engolindo golpes de água laminando

Piso o fundo - olhos bem arregalados -

Envolta em cardumes de sonhos rosa

Seguras-me na alma p’ra cima elevando

Inspiro, na tua alavanca, de um sopro só

Ondina, sereia em cântico remando;

Não te vejo respirar dourado a meu lado.

Mergulho na escuridão soando abaixo,

Agarro-te quando te sinto perto

De olhos fechados em tua boca embarco

-À tona - num salto de helénicas odes, olímpico.

Desesperas na sobrevivência catártica de ti - de nós.

Libertas o perfumado elixir dionisíaco - aos soluços.

É certo que observamos outros de bruços

Como nenúfares sorrindo  aguardamos…

O tronco que a jangada seduziu e iludiu

Cúmplice  ao perceber que dela desistiu ,

Imponente  em sua maciça simplicidade

Oferece-nos amparo e da vida saudade.

E os galhos de luz o enrugado porte contemplam…

Juntam-se todos no pântano da sorte

Almejam paragem momentânea da torrente

Confundem-se no negrume e fintam a morte.

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.


Não te amo, confesso

 

Eu tinha frio, amor. Entrei na cama, gelada,

 

e tu estavas lá. Fervias.

 

Devagarinho, coloquei as costas do meu pé no teu pé.

 

Devagarinho, para que não sentisses o choque térmico,

 

mas tu logo me embrulhaste

 

entre o calor dos teus braços e das tuas pernas.

 

Escaldavas –  e eu tão gelada.

 

Doeu-me a tortura a que te submetias,

 

pois sei que o contrário não aconteceria.

 

Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.

 

Estava gelada, pois;

 

e tu ofereceste-me, naquele instante,

 

a melhor parte de ti,

 

enquanto a trocava pela pior parte de mim.

 

Não te importaste, e até o quiseste,

 

desde que me sintas gelada e, lentamente, a deixar de tremer, respiras o meu precisar-te  – disseste –

e isso sabe-te a viver.

 

Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.

 

É tanta a dádiva que me concedes,

 

sem que eu o retribua,

 

que, agora, assim à distância de uns anos, te digo:

 

Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.

 

És um carinho ameno que foi, devagar,

 

entrando e, sem que me apercebesse,

 

lentamente me ocupando.

 

Não te amo, confesso. Sem ti, não sobreviveria.

 

As minhas entranhas não suportariam ver sofrer

 

quem depositou nelas o meu ser.

 

Não te amo, confesso,

 

tal como não amo a minha pele,

 

os meus ossos, o meu sangue, o meu respirar;

 

porque nem sempre os vejo,

 

nem sempre me lembro deles,

 

nem sempre os penso,

 

mas a verdade é que sem eles seria impossível estar.

 

O que quero dizer-te é:

 

vivo e sou quem sou

 

porque o amor maior está no que está sempre

 

e por estar sempre olvida-se.

 

És da minha natureza, amor.

 
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"