segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Olho para o meu corpo e vejo


Olho para o meu corpo e vejo
As estrias , na barriga, que nem ondas do desejo,
desejo que cresceu ao vê-la  - incrédula - aumentar.
Desejo ansioso de te conhecer - sem muito esperar.
Olho para o meu corpo e vejo
a lomba, na zona do ventre, docemente formada,
o espelho da maternidade - magia ali ancorada;
orgulhosa mostro-a ao mundo, mãe babada.
Olho para o meu corpo e vejo
a curva sinuosa - ao fundo da coluna -
o peso abençoado - da gestação responsabilidade -
o encanto com que sustive nossa felicidade.
Olho para o meu corpo e vejo
na fragilidade dos ossos o carinho dos filhos;
na dor de dentes -que me visita de quando em vez -
a nutrição, no ventre, de meus queridos bebés.
Olho para o meu corpo e vejo
na flacidez das peles  em que se tornou
o homem e a mulher que o Amor sonharam,
e da loucura as sementes que ali se geraram.
Olho para o meu corpo e vejo
A bela escultura que dele fizeram
O encanto embevecido com que o olham
Os olhos dos escultores que nele trabalham.
E sinto - nestas marcas da maternidade -
Um enorme bem-estar de quem muito de si dá.
Recebo a toda a hora - por via delas e de quem as admira -
Fragmentos de felicidade do presente e do passado.
E recordo, com saudade, as dores da maternidade.
Sentindo, a todo o momento , por dentro da carne,
Os meus amados filhos, os precoces movimentos,
(Que nem ratinhos movimentando-se por baixo do tapete)
Quando na minha pele  lânguida, os acariciava,
Comunicavam à mãe, ondulando, que sabiam quem os amava.
E ainda hoje ondulam, acocorados, no meu eterno colo
Pedem-me canções de embalar de tempos idos
Que canto, incansavelmente, aos nossos ouvidos.
Sabem que os amo e que - em mim - estão seguros
Pois o cordão, que nos cortaram, não levantou muros.
Nos umbigos faz-se presente e mostra-nos a eternidade
Que é o acto e o amor incondicional da maternidade!
 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

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