domingo, 23 de novembro de 2014

lágrimas


lágrimas

as lágrimas, que insistem em abraçar os olhos,

embaciam a dura realidade – neblina

de protecção à dor da verdade.

as lágrimas que queimam nos cantos da carência,

e ardem nos sem ar: bustos da ausência.

as lágrimas, com vida própria,

que caem soltas gemendo o rosto,

que nem cicatrizes de água,

afundam: permanente mágoa: desgosto.

as lágrimas que me acariciam

no âmago de a ti chegar,

que me lavam as preces

carpidas em cada dormir,

em cada por ti acordar.

as lágrimas que, em água e sal,

na alma se fazem,

algures, por dentro da carne –

e, no corpo, lá, onde não se vê,

em água e sal consubstanciam o sentimento,

a dor de existir no quase por vir.

as lágrimas que, de Deus escorrem,

deidade chuva,

em cada idade aligeiram

o pesado estar de todos quantos morrem.

as lágrimas, que me beijam a toda a hora,

são cansaço de amar, resignada demora,

amantes de mim e de ti,

lacrimejar de tudo e de nada,

vivência adiada, sonho que chora.

as lágrimas que, gota a gota, contadas,

desilusões, tristezas , alegrias,

e vida

somam, pela vida fora.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

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