domingo, 9 de novembro de 2014

Estás aí?


Estás aí?

Demasiadas vezes sinto que estou prestes a desistir – e demasiadas vezes regresso, no dia seguinte, mais forte do que alguma vez imaginei.

Sempre convencida de que não há lugar

mais impossivelmente só e apagado

do que o meu coração –

sempre desgastado p'ra lá da borracha,

sempre condenado àquele sorriso ébrio,

àquele baixar de pálpebras esquivo,

àquele som do vento nas palavras que é a tua respiração na palma do que é a minha:

como pode um vazio saber que é visto?

É vital para um vazio saber que existe, não?

Pode um vazio ser inspirado?

Demasiadas vezes sinto que estou prestes a desistir – e demasiadas vezes a luz do amanhecer apaga a dureza da noite,

essa que a carrega ao colo no caminho da folha amarrotada e desbotada,

mas que sussurra ao meu ouvido:

nunca é a solo.

E insiste, décadas: nunca é a solo.

E é essa ainda a esperança: nunca é a solo.

Escuto-te.

E quando a folha não quiser ser preenchida?

Como se mede a inconsciência de um vazio?

Estás aí?

Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

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