terça-feira, 25 de novembro de 2014

chora. faz parte. chora muito.


chora. faz parte. chora muito.

 
estás a chorar? não chores.

ou melhor: chora. chora muito.

rápido.

procura.

procura o canto mais escuro, o canto mais recôndito, o canto mais canto da tua casa.

fecha-te aí.

aninha-te aí. aninha-te sobre ti próprio.

enconcha-te em ti mesmo. abraça-te.

e chora.

está escuro? tem de estar tudo escuro.

há silêncio? tem de haver silêncio.

estás aninhado? estás abraçado?

no escuro? no canto mais canto da tua casa? fechado?

no silêncio dos outros? no teu choro?

escuta. o que ouves?

o teu choro? chora tudo: agora.

escuta. ainda o teu choro?

não. cantas.

cantas aquela canção de embalar. embalas-te a ti mesmo no berço.

balança-te.

abraça-te. afaga-te. beija-te.

e canta aquela canção de embalar.

então? sentes-te melhor? já passou?

respira fundo. mais uma vez. respira fundo.

agora: levanta-te e...

mundo!

estou a mandar. és tu que mandas:

mundo!

vai ver o sol. vai ver a lua.

vai ser do dia. vai ser da noite.

vai respirar o vento. vai congelar na lima.

vai mar adentro. vai montanha acima.

estou a mandar. és tu que mandas:

mundo!

sorri ao vizinho. acena à criança.

pisca o olho ao tal.

 na rua, um passo de dança.

dá um grito para o ar. ecoa no verde do vale.

põe o pé no rio. não. mergulha todo sem brio.

sente o calor na pele. prova o doce do mel.

arrepia na aragem da madrugada.

atenta no latir da canzoada.

arranha no miar do gatil.

estranha. mas não te abatas no canil.

chora. faz parte. chora muito.

mas salva-te e a outros mil.


Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sem, no entanto, olhar de facto


Sem, no entanto, olhar de facto  

É p’ra ti que,  demoradamente,  olho

Sem , no entanto, olhar de facto…

Vezes  sem fim  aguardo - não olhando -

Que teus olhos pousem em mim, de imediato.

E nas costas, tua seduzida vigia pesa-me

No peito arfando sinto-a ignorar-me , pedra.

Sei que,  iludida,  sonho quem não és

Só aquele que penso amar-me, de rígida tez.

E quando, perdido, me olhas nos olhos

Sem, no entanto, olhar de facto,

Minha suplicante mente : mente feliz.

Segreda-me (em amplo aparato)

Na ânsia de que também me vês.

Aquela com quem tu acordado sonhas

Mas que imaginas ela não ser

Aquela que pensas amar-te

Mas sabes não te querer

E que acreditas fazer(-te) sofrer.

Será amor o acabado retrato?

Palpável apenas no átrio da intuição.

Um que dúvidas no tempo lamenta

Contrai  a dor intuída percepção

Ocupa no coração amplo espaço

Sorri no doce pressupor - água benta -

Ampara a hóstia da comunhão.

Desdenha o rubor, estende a mão.

É um amor que - quando toca -

Não se mascara, suplica rosto

E olhos com olhos latejando;

Encosto de lábios, pensamento fechado

Nas pálpebras sentido o fluir do momento

E a batida do coração, acelerado atrevimento.

Tantas as palavras que guardo cá dentro.

 É p’ra ti que, demoradamente, olho

Sem , no entanto, olhar de facto…

Beijo-te.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Amar, Amar, Amar


Amar, Amar, Amar   

Amar, amar, amar

Há mar…

Imensidão de água

No apagar da vaga

No afagar da mágoa

Na onda do mago. Há.

 

Amor, amor, amor

-Ah! Morre!

Do alto da torre

De um tombo só

Se não é amado

Até mete dó

Se vai um à frente

O desgosto mata

É a alma da gente

Que não se trata

Desidrata.

 

Adorar, adorar, adorar

Há dor! Há ar!

Há respirar

E até findar

Pleno acreditar

No amor : -Ah! Morre!

No amar: Há mar

No adorar :Há dor ; Há ar

É o encadear

- Cíclico -

Do contraditório.

Ao iniciar

Tem de acabar

E dar lugar

A um novo Amor

A um novo Amar.

 

Ah! Morre!

Há mar.

Há dor.

Há ar.

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Paro


Paro

No olhar meigo de meus filhos

E bebo tranquila inspirada

Seu doce (e)terno sorriso

Vejo/Beijo nestes cálidos momentos

Um laivo da benévola amante Deusa

Que concede à nossa ansiosa demanda

Imensidão de afectos, sabores e cores.

Está à frente de nossos amordaçados olhos

Tão perceptível  no toque singelo de lábios

Tão evidente no gesto simples de afago

Mas assim mesmo…

Insistimos em não querer ver

Palpar, saborear, escutar, beijar

Cheirar, intuir, sei lá!

Na verdade, somos incapazes

Do óbvio percepcionar.

Somos parte evidente de um todo

Que nos mima, abraça e acompanha

Imensa é a luz, no iluminar tamanha

A amplitude em nosso respirar.

É só descentrarmo-nos do ego

Embrenharmo-nos na ramagem

Nessa que é a mãe, pura beleza

Espírito da fonte, essencial à vida

Ciclo do ser no estar e do estar no ser.

É isto viver.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

domingo, 23 de novembro de 2014

não quero o teu toque


não quero o teu toque

deito-me no nossa cama e não quero que me toques;

tocas-me ao de leve: encolho-me: rejeito-me.

neste segundo não te quero e não quero sentir o teu toque: abjecto-me.

sei que te causo sofrimento e que te dói este meu momento,

mas não quero que me toques: vomito se me tocas – não aguento.

sais da nossa cama: alívio na perda do santo sacramento.

espreguiço-me: descanso.

é de toque a obrigação; não quero mais que me toques:

evidente contracção.

e mereces ser tocado, amado, na tua meiguice, na tua doçura;

mas o meu corpo não quer o teu toque – reclama baldios de candura,

campos férteis de loucura.

a minha alma não quer mais o teu toque; exige-te de toque diabrura.

mereces eternidade em toque e livrar-te da ausência do meu toque

na tua ternura.

desculpa este vazio que sou na tua fartura.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

beija-me lentamente


beija-me lentamente

beija-me doce e lentamente;

demora-te, vivo, no amor que me sentes;

ama-me, arrepio de alma, no corpo cansado;

cobre-me de ti na nossa existência,

dita-nos certos neste fado;

sussurra-me no som  do meu embalo

esse timbre… deixa-me abraçá-lo.

não me iludas: vive-me.

em versos nos componho e à vida –

a que tu chamas de ilusão:

a minha realidade na tua mão.

faz-nos momento de nós na ocasião.

e quem nos ler adiante

que perceba não a fama,

mas sim o proveito. sim: o proveito.

porque se só fama for

serão vidas escritas com defeito.

espíritos eternizados nas letras do estar,

mas em vida que é vida desfeitos de dor.

 
Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

lágrimas


lágrimas

as lágrimas, que insistem em abraçar os olhos,

embaciam a dura realidade – neblina

de protecção à dor da verdade.

as lágrimas que queimam nos cantos da carência,

e ardem nos sem ar: bustos da ausência.

as lágrimas, com vida própria,

que caem soltas gemendo o rosto,

que nem cicatrizes de água,

afundam: permanente mágoa: desgosto.

as lágrimas que me acariciam

no âmago de a ti chegar,

que me lavam as preces

carpidas em cada dormir,

em cada por ti acordar.

as lágrimas que, em água e sal,

na alma se fazem,

algures, por dentro da carne –

e, no corpo, lá, onde não se vê,

em água e sal consubstanciam o sentimento,

a dor de existir no quase por vir.

as lágrimas que, de Deus escorrem,

deidade chuva,

em cada idade aligeiram

o pesado estar de todos quantos morrem.

as lágrimas, que me beijam a toda a hora,

são cansaço de amar, resignada demora,

amantes de mim e de ti,

lacrimejar de tudo e de nada,

vivência adiada, sonho que chora.

as lágrimas que, gota a gota, contadas,

desilusões, tristezas , alegrias,

e vida

somam, pela vida fora.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."