quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Geme-o


Geme-o

Acredita, algures na tua vida

vai te ser difícil digerires esta recusa

(se é que já não está a ser).

Mas o meu amor por ti é tão grande –

e fixa bem isto – que te digo:

o tédio não é o pior,

o pior é saberes que ao escolheres não tens remédio:

tédio.

Isto assim é poucochinho.

Melhor que nada, sim; mas poucochinho.

E a dependência emocional ao nada,

inevitavelmente acaba em nada:

nada dura para sempre:

tédio em estado antecipado: o vazio.

Será possível um amor pleno, um amor cósmico,

um amor cúmplice no vazio?

Sim: à posteriori.

Não: se é à posteriori não traz proveito aos agentes.

Não é amor. É passatempo. É vazio. É amor?

Eu penso-o, a outra geme-o.

Tu pensas-me, a outra geme-o.

Ela não o tem. Eu sou-o, mas ela geme-o.

Se não precisas da minha carne,

se não escutas o meu gemido ( o de verdade),

não é amor – mas ela geme-o,

em ti, o que te sou.
 
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

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