Geme-o
Acredita, algures na tua vida
vai te ser difícil digerires esta recusa
(se é que já não está a ser).
Mas o meu amor por ti é tão grande –
e fixa bem isto – que te digo:
o tédio não é o pior,
o pior é saberes que ao escolheres não tens remédio:
tédio.
Isto assim é poucochinho.
Melhor que nada, sim; mas poucochinho.
E a dependência emocional ao nada,
inevitavelmente acaba em nada:
nada dura para sempre:
tédio em estado antecipado: o vazio.
Será possível um amor pleno, um amor cósmico,
um amor cúmplice no vazio?
Sim: à posteriori.
Não: se é à posteriori não traz proveito aos agentes.
Não é amor. É passatempo. É vazio. É amor?
Eu penso-o, a outra geme-o.
Tu pensas-me, a outra geme-o.
Ela não o tem. Eu sou-o, mas ela geme-o.
Se não precisas da minha carne,
se não escutas o meu gemido ( o de verdade),
não é amor – mas ela geme-o,
em ti, o que te sou.
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"
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