sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Anda... vem...


Anda… vem…

Dói… saber-me aí sonhar-te aqui

Dói… saberes-te aqui sonhares-me aí

Fere-nos  o desencontro de nos sabermos

Magoa-nos o desalento de nos sonharmos.

Sabes-me a rio em lago sustido

Sei-te em vítreo aquário contido.

Outros mudam-te as turvas águas

Outros, que não tu, esvaziam-te de ti

Outros, que não tu, enchem-te de ti.

Sonho-te rio não barragem do mundo

Sonho-me teu mar no horizonte profundo.

Sei-te sôfrego em suor escorrido

Sei-te arfar vulcânico - meu doce gemido.

Sentes-me? Sente-me…

Saboreio teu envolver no lençol de mim

Sorvo - no deslizar meu -a mágoa sem fim

Chamas-me? Chama-me. Chamo-te:

Anda… vem…

Lava-me em labaredas de apedrejadas carícias

Mostra-te erupção premente - interditas malícias.

Mas não malditas.

Anda… vem…

Consome-te nas curvas da abjecta paixão

Consome-me ainda mais consumida.

Sacia-te nos vales - animalesca emoção.

Lava-me de mim em nós chama de magma.

Extingue nosso dorido fogo, peço-te:

Anda… vem…

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

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