quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mato-me

Lá longe sinto-te meu regressar

Naquele instante em que te pensas apagar

Esvais-te na pele, cacto, roçando ao de leve

Queima cá dentro, arde ao toque - név(o)a.

Na orelha mordo minha vontade de nós

Nu(n)ca  é o erógeno onde te saboreio

Arranhas no sempre, em rubor, minha voz

Tua barba arrepia loucura sedenta de dor

E na dureza de teu meigo rastejar

Amplio meu desejo pelo fruto encolhido.

O peito arfa faminto em selvática guerra

O coração em batida retira e alcança

No ventre a noite trepa o cobre

Da dança no amor rasgado e ferido.

Quando os movimentos fogem, escorrendo,

Labaredas de fogo incendeiam húmidos corpos

E as correntes ejaculam elos apartados

Fundem-se em mornos abraços lentos

Suaves beijos percorrem o devastado mato.

E o tempo de matar é findo acto: amo-te.

Mato-me.

Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

Sem comentários:

Enviar um comentário