sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Mortos a brincar aos vivos


Mortos a brincar aos vivos

As pessoas desistiram-se de o ser: pessoas.

Já nem sequer ousam uma aproximação,

uma entrega, a doação de si.

Temem –  temem? não será o melhor conceito, vá;

pois quem perdeu aquele brilho no olhar

já não teme nem deixa de temer –

que o sorriso seja aquilo que é: o sorriso;

ou que a lágrima seja aquilo que é: a lágrima;

ou que o abraço seja aquilo que é: o abraço;

ou que o beijo seja aquilo que é: o beijo;

ou que o amor seja aquilo que é: o amor.

Passam umas pelas outras

na rua, no café, no trabalho,

no prédio, no autocarro

e fingem que os olhos não são aquilo que são: olhos;

e fingem que a boca não é aquilo que é: boca;

e fingem que a voz nasceu para fingir que é silêncio.

Passam umas pelas outras na internet,

observam-se, lêem-se,

criam uma rotina diária de transeuntes

e continuam a fingir que os dedos não são aquilo que são: dedos;

que o coração não sangra, nem o sangue corre, nem a alma aquece.

Continuam a inventar mil formas de comunicar para se tocarem

e, no final, não se manifestam.

Chego à conclusão de que somos mortos

a brincar aos vivos.

Conceição Sousa in "Podes ir, mas não sem antes voltar"

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