Mortos
a brincar aos vivos
As pessoas desistiram-se de o ser: pessoas.
Já nem sequer ousam uma aproximação,
uma entrega, a doação de si.
Temem – temem?
não será o melhor conceito, vá;
pois quem perdeu aquele brilho no olhar
já não teme nem deixa de temer –
que o sorriso seja aquilo que é: o sorriso;
ou que a lágrima seja aquilo que é: a lágrima;
ou que o abraço seja aquilo que é: o abraço;
ou que o beijo seja aquilo que é: o beijo;
ou que o amor seja aquilo que é: o amor.
Passam umas pelas outras
na rua, no café, no trabalho,
no prédio, no autocarro
e fingem que os olhos não são aquilo que são: olhos;
e fingem que a boca não é aquilo que é: boca;
e fingem que a voz nasceu para fingir que é silêncio.
Passam umas pelas outras na internet,
observam-se, lêem-se,
criam uma rotina diária de transeuntes
e continuam a fingir que os dedos não são aquilo que
são: dedos;
que o coração não sangra, nem o sangue corre, nem a
alma aquece.
Continuam a inventar mil formas de comunicar para se
tocarem
e, no final, não se manifestam.
Chego à conclusão de que somos mortos
a brincar aos
vivos.
Conceição Sousa in "Podes ir, mas não sem antes voltar"
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