segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dinamarca


Dinamarca

Nós tivemos esta conversa bem lá atrás,

lembras-te?

Ao dar o nó, dissemos um ao outro

que uma vivência a 10, 20, 30, 40, 50, 60 anos

( ou o que seja) seria abalroada por vazios,

ausência de sabores e cheiros, instantes

anestesiados de nós, mais do mesmo sempre,

silêncios distantes, lembras-te?

Dissemos que, naturalmente,

algumas manobras de diversão nos distrairiam:

ilusões –

ou o que lhe queiras chamar –, lembras-te?

Pois bem, desta vez foi a minha vez, mas voltei.

Assim como tu já voltaste algumas vezes,

lembras-te?

Penso que o importante é sabermos, nesses raros

momentos em que nos soltamos um do outro,

que nos estamos a perder um ao outro;

penso que o importante é o outro ficar alerta –

sempre alerta ( é o que tem acontecido, não?) –

e manter-se firme na decisão de não desistir,

de não deixar de amar, de até saber que é nesse

instante – o da perda iminente – que a paixão

regressa  com a força de um vulcão em erupção;

penso que o importante é o amor:

a certeza desta ternura que nos abre os braços na

hora de regressar a casa.

És tu o meu doce lar.

Viaja, conhece, meu cavaleiro,

mas volta lá da Dinamarca

para me continuares a amar.

Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

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