Dinamarca
Nós tivemos esta conversa bem lá atrás,
lembras-te?
Ao dar o nó, dissemos um ao outro
que uma vivência a 10, 20, 30, 40, 50, 60 anos
( ou o que seja) seria abalroada por vazios,
ausência de sabores e cheiros, instantes
anestesiados de nós, mais do mesmo sempre,
silêncios distantes, lembras-te?
Dissemos que, naturalmente,
algumas manobras de diversão nos distrairiam:
ilusões –
ou o que lhe queiras chamar –, lembras-te?
Pois bem, desta vez foi a minha vez, mas voltei.
Assim como tu já voltaste algumas vezes,
lembras-te?
Penso que o importante é sabermos, nesses raros
momentos em que nos soltamos um do outro,
que nos estamos a perder um ao outro;
penso que o importante é o outro ficar alerta –
sempre alerta ( é o que tem acontecido, não?) –
e manter-se firme na decisão de não desistir,
de não deixar de amar, de até saber que é nesse
instante – o da perda iminente – que a paixão
regressa com a força de um vulcão em erupção;
penso que o importante é o amor:
a certeza desta ternura que nos abre os braços na
hora de regressar a casa.
És tu o meu doce lar.
Viaja, conhece, meu cavaleiro,
mas volta lá da Dinamarca
para me continuares a amar.
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"
Sem comentários:
Enviar um comentário