quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Agreste

    

Agreste é o caminho - íngreme o fado -

Gélido o atalho (em névoa cerrado).

No rio estreito da curta existência

Que passa… mesmo ali ao lado,

Vamos - tu e eu- de braço dado

Não se corta a direito nem sequer a eito.

 

Na margem, aqueles outros -que não nós -

Numa apatia, pesarosa e triste, observam.

Não conhecemos o timbre da sua voz.

Atentam nas águas reboliças, zangadas,

Nessa luta por respirar - a deles.

Incarnam nas urtigas ensonadas

O rubor das sangrentas chagas  - as nossas.

Estátuas apontam a corrente arredia

Sorriem encenadas poses do tudo

Imagens de cera - só isso - derretem

Ao abrasador calor - liquefeitos no nada.

 

Aqui - molhados em galhos de azul e luz -

Encharcados na lama dos húmidos amores,

Entrelaçamos nossas dores – sufocando.

Engolindo golpes de água laminando

Piso o fundo - olhos bem arregalados -

Envolta em cardumes de sonhos rosa

Seguras-me na alma p’ra cima elevando

Inspiro, na tua alavanca, de um sopro só

Ondina, sereia em cântico remando;

Não te vejo respirar dourado a meu lado.

Mergulho na escuridão soando abaixo,

Agarro-te quando te sinto perto

De olhos fechados em tua boca embarco

-À tona - num salto de helénicas odes, olímpico.

Desesperas na sobrevivência catártica de ti - de nós.

Libertas o perfumado elixir dionisíaco - aos soluços.

É certo que observamos outros de bruços

Como nenúfares sorrindo  aguardamos…

O tronco que a jangada seduziu e iludiu

Cúmplice  ao perceber que dela desistiu ,

Imponente  em sua maciça simplicidade

Oferece-nos amparo e da vida saudade.

E os galhos de luz o enrugado porte contemplam…

Juntam-se todos no pântano da sorte

Almejam paragem momentânea da torrente

Confundem-se no negrume e fintam a morte.

 
Conceição Sousa in "pontas soltas: nós"

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