domingo, 23 de novembro de 2014

ser tudo


ser tudo

não podemos, de facto, ser tudo.

 e das opções que somos

(dos caminhos que nos olham ),

as que libertamos

esvaziam o nosso peito do bem-estar

e vertem a dor no seu lugar ;

as que tomamos,

na certeza de que nos levam a algum lugar,

quando sentidas como pele da nossa pele,

afagam a dor vertida,

bebem-na aos pouquinhos,

e transformam-na em amor pela vida

na nossa plena vida.

Conceição Sousa in "ai. como dói. esta dor."

sábado, 22 de novembro de 2014

Múmia


Múmia

Por que me deitaste num leito temperado de sal e sono

e deixaste que as águas ocupassem o espaço do teu abraço?

Agora queres fazer amor com um glaciar à deriva, uma raiz decepada

a hibernar no lago dos moribundos.

O clímax do teu desejo fumega

na carcaça inerte da alma desprovida de nome,

a múmia petrificada no escudo do teu cansaço incógnito,

a seiva que transbordou o corpo

e cobriu de toque o vazio do teu beijo doce.

Quem te marcou
esse querer, suor meu?

Conceição Sousa in "Podes ir, mas não sem antes voltar."

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Às vezes


Às vezes

Às vezes sentimo-nos sós,

às vezes o cansaço cobre-nos de cobertor,

às vezes quem deveria estar não está,

às vezes o tempo estica,

às vezes o tédio anestesia,

às vezes ouvimos um sussurro,

a cada dia mais próximo do nosso ouvido, e pensamos

" é p'ra mim? estás a dizer-me que sou bonita?",

às vezes sorrimos a quem passou a estar

e não estava,

às vezes choramos porque quem estava

deixou de estar,

e o sussurro afinal não era ao nosso ouvido,

às vezes voltamos à apatia,

às vezes dormimos sem saber porquê

e acordamos sem saber ao quê,

às vezes quem tinha ido volta,

às vezes o tempo voa,

às vezes o sussurro sopra numa voz diferente,

às vezes a vida ensina:

o sol nasce e põe-se todos os dias;

a primavera, o verão, o inverno e o outono revezam-se a cada ano;

a chuva molha sempre;

a lágrima sabe o caminho de cor

e o sorriso está lá na meta.

Às vezes, assumimos a vida, tal como ela nos é –

mas, mesmo que não a assumamos, ela é na mesma.

 
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

Chinelos


Chinelos

Se um dia acordares e sentires que a vida não gosta de ti, respira fundo.

Senta primeiro na cama,

dirige-te ao chuveiro

( nem precisas de calçar os chinelos.

Sentes o gelo no chão?

És tu no chão. Levanta-te! ),

deixa que a água te benza,

passa a toalha bem devagar
( vês como te sabe mimar? É quentinho , não é ? ),
olha para a porta sem medo,
está na hora de a abrires.
Olha como é linda a vida,
e há um sol que todos os dias te convida:
vem,
vem comigo,
eu sei como te amar.

Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

Shooting Star


Shooting Star

Upon shooting stars I look

Wishing them to be quiet and still

Wondering where is my Captain Hook

Longing to say what I truly feel

Disappointed I keep asking myself

Whether my being is an awkward one

Lately all seem to put me on a shelf

Or accusing me of wrongly done

The black hole opens before the existence

Inviting her to jump into sleep

Temptation is huge and hard the surveillance

Of fighting for justice...it’s just a leap.
 
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

Fósseis


Fósseis

Qual deles, universos paralelos, escolho?

Qual delas, vidas cintilantes, percorro?

Nem sempre o estrato debaixo de é dispensável...

há fósseis e rochas radioactivas
a comprovarem-nos o chão daquela era,
extinta em espécie e massa,

sabe-se lá por qual cataclismo.

E as fendas recortam estratos,
as falhas golpeiam o trabalhar do tempo,
mostram-nos que é sempre bom ajudar os filhos a estudar,
pois, de repente, lá sai um poema a deslizar à deriva,
uma espécie de pangeia fragmentada
a mover-se no magnetismo das placas tectónicas
que encaixam e desencaixam, também icebergs, s
empre ao som de um sermão, amor.
Corais? O eterno vestígio da tua passada.                          
De todas as cores o rubro ainda é a mais amada.
Ai de ti se não passas mais esta prova com excelência!  
Dói-me a garganta.                                          
Raios partam mais esta fenda.                           
Tão belo este caminho.                                           
É só uma a porta, como vês.
Conceição Sousa in "Um Doce Travo a Fel"

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

nem sei se

“ Ao ver-te, meu amor, tudo parou: tudo acelerou.
Nem sei se diga, nem sei se faça,
Nem sei se siga, nem sei se nasça.
Tudo começou e tudo acabou.
Ao ver-te, meu amor, o meu coração rompeu:...
Em todas e direcção alguma.
Nem sei se corra, nem sei se pare,
Nem sei se mate ou se morra.
Ao ver-te, meu amor, a minha loucura gemeu
Na tremura em que te senti,
Em mim teu olhar doeu;
Petrifiquei : ardor suado - vivo
Consumido, amor, no fado meu: sofro .”


(NFF)

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."